Gostei da leitura, flui muito bem. Fiz algumas correções, até de erros de digitação, e assinalei-as com asteriscos. Enquanto lia, eu pensava, tenho uma história boa para contar ao Cachorrão. Mas à medida que o livro avançava, todas essas histórias apareciam. Vou pensar mais um pouco, procurar alguma anedota inédita, mas acho que você as conhece todas, melhor que eu.

Um grande abraço,
Chico Buarque

Na Imprensa

Editora inicia atividades no Brasil com Chico Buarque

18/10/2009 - Hoje em dia - MG por Patrícia Cassese

Artista deu o aval à iniciativa do amigo

Em tempos em que aparelhos como o Kindle ameaçam acabar com o livro impresso, não deixa de ser uma boa notícia a entrada de mais uma editora "real" no mercado brasileira.

Na verdade, a Leya não é propriamente uma editora, mas uma holding, criada em Portugal em janeiro de 2008 e atualmente formada pelas editoras portuguesas e africanas Asa, Caderno, Caminho, Casa das Letras, Dom Quixote, Estrela Polar, Gailivro, Livros d'Hoje, Lua de Papel, Ndjira (Moçambique), Nova Gaia, Nzila (Angola), Oceanos, Oficina do Livro, Sebenta, Teorema e - ufa! -Texto.

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A Leya inicia suas atividades no Brasil com o lançamento de 20 títulos, previstos para chegar às livras deste mês até dezembro. Para o ano que vem, a editora estima oferecer aos leitores brasileiros cerca de cem novos títulos.

Uma das primeiras publicações a receber a chancela da Leya em plagas locais é "Histórias de Canções - Chico Buarque", de Wagner Homem, que chega ao mercado exatos seis meses após o lançamento de "Leite Derramado", do também dublê de cantor e compositor. Para quem não sabe, Wagner é o nome por trás do site oficial de Chico. Nascido em Catanduva, em 1951, é, na verdade, formado em Administração de Empresas, mas atua na área de Tecnologia da Informação.

Homem passou a se interessar pela obra de Chico em 1965 - mais precisamente, ao ouvir "Pedro Pedreiro". Mas a amizade teve início em 1998, quando, após conhecer Chico, sugeriu a criação do site. Hoje, Wagner também é responsável pelos sites de Maria Bethânia e do escritor Mario Prato. Cumpre dizer, ainda, que, por três anos consecutivos, ele faturou o prêmio iBest, de websites corporativos e pessoais.

Mas a melhor credencial de Wagner para a empreitada agora concretizada é mesmo a amizade, o que fez com que tivesse acesso a histórias que, por uma questão ou outra, acabaram ficando restritas ao grupo que as vivenciou, longe dos holofotes da grande mídia. O objetivo assumido por Wagner é o de "destrinchar, com minúcias, episódios relacionados a mais de uma centena de canções do artista".

São, ao todo, 428 páginas, 26 capítulos divididos em períodos históricos, cobrindo de 1964 a 2008. Naturalmente, ao revirar a lavra de Chico, através das tais histórias, o livro acaba também citando outros nomes de inegável magnitude da cultura nacional, como Baden Powell, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Edu Lobo, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Toquinho e Zuzu Angel.

Toquinho, aliás, assina a orelha, que resume com eficácia o que os leitores vão concluir após dar cabo do projeto. "Músicas têm histórias, e é bom saber delas, principalmente das de Chico".

O livro não perde tempo com detalhes biográficos extensos da infância do cantor e compositor. Fala de forma resumida da infância em São Paulo, da escolha pela Faculdade de Arquitetura, dos "sambafos"... Mas o escopo é mesmo o ano de 1964, quando foi gerada "Tem Mais Samba", que, lembra o autor, Chico considera como o marco zero de sua carreira profissional. Daí se sucedem canções e histórias.

Como a de "Juca", composta durante um dos "sambafos", quando policiais chegaram ao local chamados por vizinhos do barzinho próximo ao Mackenzie, incomodados com tanto barulho.

A mesma "Pedro Pedreiro" que impressionou Wagner Homem, também arrebatou Tom Jobim. Já Caetano Veloso, conta o livro, se rendeu a "Olé, Olá", de 1965. "Encantado com a melodia e a facilidade com que o compositor trabalhava a letra, (Caetano) copiou-a num pedaço de papel e anexou-a a uma carta encaminhada a Dedé, sua namorada, dizendo: "Conheci um cara que é a coisa mais linda".

Sobre "Morena Dos Olhos D'Água", Chico comentou, há mais tempo, a versão de que seria composta para Eleonora Mendes Caldeira. Mas Wagner acrescenta que as irmãs de Chico, Ana de Holanda e Maria do Carmo, têm outra versão. Garantem que o mano, à época da feitura da música, ligou para mais de uma mulher dizendo serem elas a musa.

A parceria de Chico e Vinicius na letra de "Gente humilde", música de Garoto, uma das queridas da autora destas linhas, tem também o seu registro. Enciumado com as parcerias de Chico e Jobim (na época, três), Vinicius aproveitou uma ida à Itália, em 1969, para conhecer a afilhada Sílvia e pediu que Chico desse um "jeito" na letra. O amigo nada achou de errado numa letra irretocável e só acrescentou uma estrofe. Foi o suficiente para Vinicius alardear a Tom que agora também era "parceirinho" de Chico.

Os anos de chumbo da Ditadura também estão registrados, com os subterfúgios que o cantor e compositor usava para tentar driblar a censura. Julinho da Adelaide e Leonel Paiva foram alguns dos pseudônimos usados por Chico à época. "Acorda amor", de 1974, de "Julinho", descreve uma prisão parecida com a que Chico fora vítima em 1968. Mas o governo descobriu o expediente de Chico e passou a exigir carteira de identidade dos compositores.

Outras histórias vão se somando até desaguarem no ano de 2006, quando Chico lança, pela Biscoito Fino, o CD "Carioca", com canções como "Outros Sonhos", com a polêmica alusão à maconha, que ele até explicou em entrevistas à CartaCapital.


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