Gostei da leitura, flui muito bem. Fiz algumas correções, até de erros de digitação, e assinalei-as com asteriscos. Enquanto lia, eu pensava, tenho uma história boa para contar ao Cachorrão. Mas à medida que o livro avançava, todas essas histórias apareciam. Vou pensar mais um pouco, procurar alguma anedota inédita, mas acho que você as conhece todas, melhor que eu.

Um grande abraço,
Chico Buarque

Na Imprensa

Histórias de canções de Chico Buarque

26/10/2009 - Bloguete o blog do G7 por Jorge Bric

Histórias de canções de Chico Buarque

A revista Rolling Stone deste mês, que traz, em edição especial, as 100 melhores músicas brasileiras, elegeu Construção a melhor de todas. E fez muito bem. Seu compositor, como bem descreveu Caetano, “é a coisa mais linda”, sem dúvida o maior músico brasileiro vivo, seguido talvez por Jorge Ben (autor da tantas vezes regravada Mas que nada, que aparece em quinto lugar no ranking da revista).

Construção é uma música completa. Sua letra alia crítica social a uma experiência formal absolutamente feliz, e a melodia, brindada com os arranjos do maestro tropicalista Rogério Duprat, parece externalizar o que a letra diz. Com o álbum que leva o mesmo nome, Chico Buarque “chegou próximo da tão falada unanimidade, recebendo elogios e críticas de todas as tendências”, conforme escreveu Wagner Homem, no recém lançado Histórias de canções – Chico Buarque, que se dedica exclusivamente a revelar os bastidores de suas composições.

O livro traz ao público pequenas histórias sobre como andava a vida de Chico à época em que criou seus principais trabalhos (entre músicas e peças), e também sobre como andava a vida do País nesses momentos, fazendo, com isso, uma singela retrospectiva de nossa história recente.

Conta, entre uma infinidade de pequenas histórias, que Chico se projetou nacionalmente ao musicar a peça Morte e Vida Severina, encantando o próprio João Cabral de Melo Neto, que antes se opusera à encenação de seu poema; que, para atender a uma encomenda de Nara Leão, assumiu pela primeira vez o papel feminino em uma música (Com açúcar, com afeto), exercício que se tornaria mais tarde uma de suas marcas; que os atores de sua peça Roda Viva foram agredidos em pleno palco pelo Comando de Caça aos Comunistas; que a música Carolina, composta “nas coxas” para evitar uma briga judicial com a rede globo, acabou lhe rendendo vários aborrecimentos, como uma rusga com o amigo Caetano; que ele não estava presente quando Sabiá, feita em parceria com Tom, recebeu uma tremenda vaia, fazendo o maestro chorar; que Apesar de você, sua primeira música realmente de protesto, foi rapidamente tirada de circulação pelo regime militar; conta até como Chico evitou que Vinicius de Moraes transformasse sua Valsinha numa “valsa hippie”, além de muitas outras deliciosas passagens da vida do artista.

Em resumo, o livro é perfeito pra quem gosta de música brasileira, fluindo, do início ao fim, como uma leitura leve e agradável.

De todas essas as histórias contadas pelo autor, talvez a mais expressiva seja a que envolve a vitória de A Banda no II Festival de Música Popular Brasileira. Embora alguns a tenham enxergado como uma canção alienada, numa época em que se exigia engajamento, como bem expôs Wagner Homem, a verdade é que a sua crítica sutil à truculência do regime militar soa mais pesada do que os discursos panfletários da época. Ao falar sobre como uma cidade parou pra ver a banda passar, mostrou, na verdade, como as pessoas andavam carentes de um pouco de amor. Narra o livro que o escritor Nelson Rodrigues, ao ouvir a canção, sentiu vontade de sair de casa, sentar-se no meio-fio e começar a chorar.

A mensagem de Chico ainda ecoa (talvez até com mais força) na sociedade de hoje, também marcada pela brutalidade. Não a brutalidade da ditadura, mas uma brutalidade silenciosa de indiferença, de insensibilidade, de solidão… a brutalidade de uma sociedade que vem perdendo a capacidade de ficar perplexa, como bem definiu Eric Fromm.

Pedindo desculpas ao leitor, resolvi me estender um pouquinho esta semana e trazer um trecho do que Drummond escreveu sobre A Banda, em uma crônica integralmente reproduzida no livro de Wagner Homem.

É que precisamos parar um pouquinho para ler sobre as coisas de amor. Afinal, parafraseando os Beatles, o amor continua sendo a resposta…

O jeito, no momento é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor, andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o que mais estamos vivendo ou presenciando.

Viva a música, viva o sopro de amor que a música e a banda vêm trazendo, Chico Buarque de Holanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda de sonhos, que o desamor puiu e lixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó do ar, na falta de ar.

Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las e distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área da nossa vida particular; abrange terrenos infinitos, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor

E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.


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