Gostei da leitura, flui muito bem. Fiz algumas correções, até de erros de digitação, e assinalei-as com asteriscos. Enquanto lia, eu pensava, tenho uma história boa para contar ao Cachorrão. Mas à medida que o livro avançava, todas essas histórias apareciam. Vou pensar mais um pouco, procurar alguma anedota inédita, mas acho que você as conhece todas, melhor que eu.
Um grande abraço,
Chico Buarque

Histórias de 133 canções de Chico Buarque são contadas em livro
Uma das maiores curiosidades das letras de um grande compositor é o que está nas entrelinhas. Saber quem é “ela” ou aquele “amor”. Essa questão ganha maior força quando se trata de um dos maiores letristas da história da música popular brasileira: Chico Buarque de Hollanda.
Escrito pelo paulista Wagner Homem, 58, Histórias de canções - Chico Buarque (ed. Leya, R$44,90/356 páginas), mata a curiosidade de admiradores da obra do carioca de 65 anos. A publicação explica 133 canções do artista, dando um aperitivo do processo criativo de Chico, trazendo um panorama político da época e contando muito sobre as parcerias que o mestre dos olhos azuis teve (e ainda tem). A publicação está em terceiro lugar na lista da Veja das não-ficções mais vendidas.
A ideia surgiu quando Wagner, responsável pelo site do cantor e compositor, contava em notas na página da internet como determinadas músicas tinham surgido. Tudo isso a partir do convívio dele com Chico desde 1989. Era a parte mais acessada do site e em 2007, Wagner teve a ideia de transformar tudo aquilo em livro. “As pessoas gostam muito das histórias. É um garimpo, a gente vai descobrindo as coisas aos poucos”, diz o autor por telefone. A maioria das histórias conta com depoimentos do próprio compositor, que aprovou tudo o que foi escrito na publicação.
Número um
Mensurar a importância é impossível, mas, sem dúvida, Chico, que chegou a fazer faculdade de arquitetura em 1963, é um dos artistas mais completos e admirados do país, muito pelo impecável equilíbrio entre um belo instrumental e letras inteligentes. A prova disso é que na recente eleição das maiores músicas brasileiras pela edição nacional da revista Rolling Stone a vencedora foi Construção, do álbum homônimo de 71.
“Tem duas histórias que eu gosto muito: Meu caro barão e Ilmo. sr. Ciro Monteiro ou receita para virar casaca de neném”, revela Wagner. Na primeira, feita para o filme Os Saltimbancos Trapalhões (1981), Chico utiliza o fato de os personagens serem semianalfabetos e a letra ser uma carta que eles escreviam na máquina de datilografar para retirar acentos, criar ritmo e fazer rimas diferentes. Em Ilmo. sr. Ciro..., a origem é uma camisa do Flamengo enviada pelo sambista Ciro Monteiro para a recém-nascida Silvia, filha de Chico, que é torcedor do Fluminense. O artista aproveitou a promessa de dar uma música para o sambista e compôs a cômica letra.
Bom humor
As histórias das músicas, de um saboroso tempo em que os mestres Vinicius de Moraes e Tom Jobim ainda eram vivos, tem, muitas vezes, essa linha boa-praça de Chico. “Ele é um cara muito bem-humorado, é um gênio”, derrama-se Wagner. Outras mostram como o artista, nas décadas de 60 e 70, tentava fugir da censura imposta pelo regime militar.
O livro, estreia da editora portuguesa Leya no Brasil, traz só uma pequena parte do rico acervo de Chico, mas Wagner não pensa em lançar um segundo volume com mais histórias. “Se houver uma reedição, eu posso até juntar mais algumas coisas. Sempre aparece uma coisinha nova, uma foto dele perdida”, garante. Até o próprio artista afirma, na contracapa da obra, que não se recorda de mais nenhum caso específico de canções.
Num belo trabalho, Wagner torna coletiva a memória de Chico e de um delicioso e bem guardado tempo. Chico confessou à revista Status, em 1993, que a ideia de narrar os últimos instantes da vida de um operário veio depois que Construção já estava praticamente pronta. Inicialmente, era só uma experiência na forma, que utiliza versos dodecassílabos, alternando rimas em palavras proparoxítonas. O curioso é que a música foi aprovada pela censura após uma jogada esperta do advogado da gravadora Philips. Sabendo que o órgão era ‘do contra’, pediu que a letra não fosse liberada. A censura caiu e liberou-a.
A história de Geni e o zepelim foi baseada na da prostituta do conto Bola de sebo do escritor e poeta francês Guy de Maupassant (1850-1893). O problema é que a canção fez com que prostitutas fossem agredidas, fato lamentado por Chico que disse no programa Canal livre, em 1980, que todo artista está sujeito a interpretações equivocadas.
Esta é uma das poucas letras com nome de uma mulher real que Chico fez. Angélica é dedicada à estilista e amiga Zuzu Angel, cujo filho, Stuart, foi morto pela ditadura. No mesmo dia em que foi assassinada, Zuzu deixou na casa de Chico os costumeiros relatórios sobre a luta para recuperar o corpo do filho e três blusas com anjinhos para as filhas do mestre
O curioso de Luisa é que tanto Chico quanto Francis Hime, seu parceiro na letra, têm uma filha com esse nome. De acordo com Marieta Severo, ex-esposa de Chico, ela foi ao cinema com Olívia Hime (mulher de Francis) e as duas deixaram os maridos cuidando da Luisa de Francis. Quando voltaram, a letra estava pronta.
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