Gostei da leitura, flui muito bem. Fiz algumas correções, até de erros de digitação, e assinalei-as com asteriscos. Enquanto lia, eu pensava, tenho uma história boa para contar ao Cachorrão. Mas à medida que o livro avançava, todas essas histórias apareciam. Vou pensar mais um pouco, procurar alguma anedota inédita, mas acho que você as conhece todas, melhor que eu.

Um grande abraço,
Chico Buarque

Na Imprensa

Histórias de Canções

11/12/2009 - Diário do Grande ABC por Texto: Nelson Albuquerque Fotos: Andréa Iseki


Entre dezenas de adjetivos que definem Chico Buarque, talvez apenas um incomode seus fãs: inacessível. Divinizado por suas músicas ricas em poesia e conteúdo, o carioca é avesso a entrevistas e nunca é visto nos braços do público. Muito mais distante seria a ideia de, de repente, tornar-se amigo do autor de músicas como A Banda e Apesar de Você e dos livros Budapeste e Leite Derramado.

Pois é, mas o administrador de empresas Wagner Homem, 58 anos ¬– que na juventude, como diretor de teatro amador, tentou cortar a música de Chico numa montagem da peça Morte e Vida Severina – é raro exemplo de um mero mortal que hoje faz parte da vida do compositor. Homem é o autor de Chico Buarque – Histórias de Canções, um livro recheado de curiosidades e casos deliciosos relacionados à vida artística e à obra do músico. O livro é um dos títulos de estreia da editora Leya no Brasil e tem excelente passagem pelas listas dos mais vendidos.

É evidente que, para escrever um livro assim, o autor precisa nutrir uma certa admiração pelo artista pesquisado e manter alguma proximidade. “Na verdade, eu queria ser o Chico”, diz Homem, já demonstrando ser um bom parceiro de conversa, descontraído e ótimo em lembrar e contar boas histórias.
Para entender a proximidade desses dois personagens é preciso voltar a 1965, quando o adolescente Wagner ouviu pela primeira vez uma música de Chico, Pedro Pedreira. Gostou, e passou a comprar discos e discos. “Quando a gente compra não dá valor, mas uma hora descobri que eu tinha muita coisa do Chico, muita raridade”, afirma.

Com tanta informação em mãos, em 1989, por indicação de um amigo, Homem colaborou na confecção do livro Chico Buarque Letra e Música (Companhia das Letras). Foi quando o conheceu pessoalmente. “Em meia hora você percebe que aquela timidez (do Chico) é pura bobagem. Ele é um cara reservado, com toda razão, mas no dia-a-dia não, ele é até atrevido”, conta.

Atrevido, isso é tudo. Homem respeita a discrição do amigo e não fala nada da vida pessoal: “Mulheres? Comigo ele nunca falou sobre esse assunto. Já ouvi algumas histórias, mas não posso contar; só ele mesmo, o que eu duvido”.
Como profissional da área de Tecnologia da Informação, Homem sugeriu, em 1998, a criação de um site pessoal a Chico Buarque. “Ele aceitou bem a ideia, só fez uma observação: ‘Eu não quero trabalhar, hem, cachorro!’”, lembra, aos risos.

Mas o músico teve, sim, algum trabalho. Revisou todas as letras, aprovou o layout da página de internet e, no fim, fez um pedido. “Ele fez questão de colocar no site todas as críticas desfavoráveis, até lembrou de uma específica e quis ter certeza que ela entraria”.

Amizade à distância

Depois do livro História de Canções, Wagner Homem ficou conhecido como o amigo de Chico Buarque. O autor tem mesmo muitas histórias para contar, mas a maioria é fruto de pesquisa. “Não conheço o Chico tanto quanto se propala, até porque não dá para ser amigo a 400 quilômetros de distância. Temos, sobretudo, um relacionamento de respeito e trabalho. É uma relação próxima, mas de trabalho”, diz Homem.

Tanto respeito que ainda não teve coragem de contar ao amigo a tentativa de limar sua música em uma peça teatral amadora. “Como diretor de uma montagem de Morte e Vida Severina no interior (Homem é nascido em Catanduva), eu achava as músicas do Chico muito alegres para a peça. Tentei tirar. Claro que não consegui, foi uma atitude infantil. Aquele trabalho já era reconhecido como brilhante (Chico fez as músicas em 1965 para um auto de Natal do poeta João Cabral de Melo Neto que foi encenado no Tuca)”.

O compositor ainda não conhece o episódio. “Talvez eu nunca contaria, mas acho que agora ele vai saber”, brinca.
Nessa época, Homem nem imaginava que conheceria pessoalmente o compositor das canções “alegres”. Aliás, garante nunca ter projetado isso na vida. “As coisas foram acontecendo. Nunca tive nenhuma ilusão de conhecer ou não o Chico. De repente, estava trabalhando com ele”, diz. A convivência entre os dois é mais intensa em momentos específicos, como durante a criação do site ou da elaboração dos livros.
Curiosamente houve um período, entre o fim dos anos 1970 e meados da década de 1980, em que por pouco eles não se encontraram no Grande ABC. Enquanto Homem vivenciava a região como trabalhador na área de processamento de dados na CTBC, em Santo André, e mais tarde na Mangels, em São Bernardo, Chico Buarque fazia alguns shows com renda revertida ao Fundo de Greve.

No livro, Homem relembra a música Linha de Montagem, com os trechos “Gente que carrega a tralha/ Ai, essa tralha imensa chamada Brasil/ Sambe sambe São Bernardo/ Sanca São Caetano/ Santa Santo André/ Dia a dia Diadema/ Quando for, me chame/ Pra tomar um mé”.

Em 1980, Chico apresentaria esta canção em dois shows programados pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Cerca de 100 mil ingressos já haviam sido vendidos, mas as exibições foram proibidas pelo regime militar. “A música foi incluída num compacto duplo, e a receita das vendas, revertida para o Fundo de Greve”, descreve no livro.

Futebol, outra paixão do compositor, não é compartilhado pelo amigo. “Só joguei quando moleque e até como torcedor me afastei um pouco. Pior que o meu Timão só o Flu do Chico”, brincou Homem (no dia da entrevista, o Corinthians estava em 12º lugar no Campeonato Brasileiro e o Fluminense, em 20º).
Conhecedor de tantas histórias e privilegiado por ter proximidade com um dos gênios da música brasileira, Wagner Homem é um forte candidato a ser o biógrafo de Chico Buarque. Aliás, poderia ser se já tivesse pensado no assunto. “Nem em sonho”, limita-se a dizer.

Chico e a tecnologia

O site www.chicobuarque.com.br ganhou por três anos consecutivos o prêmio iBest e foi também um grande passo para fazer o livro Histórias de Canções. “Hoje seu design está até um pouco superado, mas a preocupação maior é com o conteúdo, é ser um centro de referência sobre a obra de Chico Buarque”, afirma o criador da página.
E cumpre com seu objetivo. Desde que entrou no ar, há 11 anos, o site arquiva tudo o que foi publicado nele. “Se alguém se propuser a imprimir, terá de 3.000 a 4.000 páginas”, conta Homem. Muitas raridades. “Ontem mesmo (entrevista foi no dia 28 de outubro) descobri, em uma pesquisa na internet, um vídeo do Chico lendo Budapeste em italiano”, diz. O site disponibiliza o link para assistir ao vídeo.

Apesar de aceitar com tranquilidade a ideia do site, Chico relutou um pouco mais quando Homem sugeriu que começasse a usar e-mail. “Em 1998, ele nem tinha internet, só usava o computador para escrever seus livros e jogar paciência. Falei: ‘Você precisa ter e-mail’, e ele perguntou para quê. Respondi: ‘Para falar com os amigos’, mas ele disse que para isso existe telefone. Insisti dizendo que seria útil para receber um documento, e ele rebateu dizendo que existe o correio. Então, falei que se ele precisasse receber um documento urgente com 50 páginas, seria possível fazer isso em coisa de minutos. Aí ele ficou quieto um tempo, pensando, e respondeu: ‘É, mas aí eu vou ter que ler 50 páginas!’”.

Foi com relutância, mas no fim aderiu à comunicação eletrônica. Hoje tem seu e-mail, no entanto passa longe a possibilidade, por exemplo, de o Chico fazer parte do twitter. “Ele não participa de nenhuma rede social na internet. Não é seu perfil, seu estilo. Ele só aparece quando tem trabalho para mostrar”, afirma.

E, como são longos os hiatos entre discos e livros, as atualizações do site não são tão frequentes, pelo menos em relação a novas obras. Mas o garimpo por raridades é constante. Homem conta que a internet ajuda muito nessa pesquisa. Lembra de um episódio em que procurava a música Bolsa de Amores, censurada e fora de sua coleção. Deixou recado em um fórum, saiu para levar a filha à escola e, quando voltou, a música já estava em seu e-mail.

A velocidade da informação e as facilidades de comunicação são as características da internet que mais agradam o escritor, mas há ressalvas. “É um universo rico e perigoso. Acredito que a criançada está lendo mais e conhecendo coisas que abrem os horizontes, mas ao mesmo tempo é preciso cuidado, porque tem muita bobagem escrita. Por exemplo, já li que o Chico era filho, sobrinho do Aurélio (Buarque de Holanda). São parentes, mas distantes”, corrige.

Para viajar com Chico

História de Canções é um livro que carrega o leitor a uma viagem através do tempo em companhia de Chico Buarque. Traz as músicas do compositor carioca em ordem cronológica. Cada letra vem acompanhada de relatos sobre sua trajetória.

O texto faz emergir fatos artísticos relevantes, como quando cita a bossa nova abrindo espaço para cantores que, como Chico, não tinham o vozeirão das rádios. Ou ainda quando fala das tendências e embates proporcionados pelos festivais, como a pretensa rivalidade do músico com a Tropicália, de Gil e Caetano.

Também recorda os momentos políticos do País, sempre ligados ao período da música em questão. Bem objetivo, nada denso ou cansativo. Só o suficiente para colorir o imaginário do leitor, fã ou não de Chico.
A política, aliás, vive relacionada com a obra de Chico Buarque, principalmente por conta do regime militar que coincidiu com uma fase bastante produtiva do compositor. Por isso até hoje lhe perguntam sobre o tema, o que lhe desagrada bastante, segundo Homem. “O Chico sempre fala ‘sou artista, para que vou falar de política?’. Essa é uma das razões que faz ele não gostar de aparecer em TV, porque ele quer mesmo é mostrar o trabalho e não falar de assuntos que não lhe interessam”, afirma.

Mas, apesar de essa aversão ao tema ser antigo, o próprio livro de Wagner Homem está a todo momento perpassando o regime militar. “No começo, Chico era visto como conservador. Só se engajou mesmo quando a censura ficou insuportável. Pisaram no calo dele e a primeira música de protesto que ele fez foi Apesar de Você”, conta o autor do livro.

“Você vai pagar e é dobrado/ Cada lágrima rolada/ Nesse meu penar”. A canção é de 1970 e, para surpresa, chegou a ser liberada pela censura e vender 100 mil compactos. “Tudo ia bem, até que uma notinha publicada em um jornal do Rio de Janeiro insinuou que o ‘você’ era na verdade o presidente Médici. Chico, já preparado, disse cinicamente que se tratava de uma mulher muito mandona. Não colou”, diz um trecho do livro.

Até quando o compositor chegava com uma obra brilhante, havia gente que tentava rasurar o trabalho com tintas políticas. É o caso de Construção (1971), reverenciada pela “riqueza da melodia, primor da letra em dodecassílabos, alternando rimas em proparoxítonas”. Um sucesso, que não escapou da “agressão gratuita, de péssimo gosto” do jornalista de direita David Nasser, que sugeriu a inclusão de mais uma proparoxítona: Médici.
Chegou um momento em que a censura vetava logo pelo nome do autor. Chico era um que não conseguia ter suas canções liberadas. Por isso passou a assinar como Julinho da Adelaide. Funcionou, e o cinismo foi tanto que ele dava entrevistas se passando por Julinho, mancomunado com jornalistas como Mário Prata e Silvio Lancellotti.

O relato sobre A Banda (1966) mereceu mais de seis páginas no livro. Conta desde a intenção do autor com a música até seu sucesso, chegando a ser tema de uma crônica inteira (publicada na íntegra no livro) de Carlos Drummond de Andrade no Correio da Manhã, e outra de Nelson Rodrigues no jornal O Globo.
Ainda assim, não houve unanimidade: “Havia quem visse no lirismo e na singeleza da canção um retrocesso, uma postura alienada para uma época que exigia o engajamento político dos artistas”.

Incompreensões e confusões

Wagner Homem também tenta esclarecer, no livro, algumas confusões acerca de certas criações de Chico Buarque. Músicas que foram incompreendidas, mitos alimentados pela imaginação do povo, suspeitas equivocadas da censura e até a leitura errônea de um jornalista cubano que provocou uma situação embaraçosa ao compositor.

Um exemplo de “teimosia do imaginário popular” é o caso da música Jorge Maravilha (1974), na qual Chico canta “Você não gosta de mim/ Mas sua filha gosta”. Para driblar a censura, o músico assinou como Julinho da Adelaide e a canção foi autorizada.
Mais tarde, quando descobriram o verdadeiro autor, alguém fantasiou que ‘a filha’ na música era uma referência a Amália Lucy, filha do general Geisel. Chico já explicou a verdade: ao ser preso por agentes de segurança, ele recebeu pedido de autógrafo feito por um contínuo de delegado, que queria levá-lo para a filha. Mas a explicação não agradou. “As pessoas preferem a versão que a realidade”, diz Homem.

Outra confusão com o regime militar aconteceu com Trocando em Miúdos (1978). A música foi censurada pelo simples fato de conter o nome de um poeta ligado ao comunismo: “Devolva o Neruda que você me tomou/ E nunca leu”. Segundo Homem, Chico tentou municiar os advogados com alguns argumentos, como “Fala pra eles que a moça levou o Neruda , mas não leu... então não tem perigo”. Não funcionou.

Mulheres de Atenas (1976) criou polêmica com integrantes do movimento feminista da época. Elas entenderam que a letra pregava a passividade das mulheres, quando sugeria exatamente o contrário. “Foi uma imbecilidade incontestável. Elas não entenderam a ironia, não entenderam nada”, afirma o escritor.

Mas foi diante de um jornalista cubano que Chico passou momentos de embaraço – ou uma situação cômica, dependendo do ângulo de visão. Em 1970, ele fez uma versão para a canção Gesù Bambino, de Lucio Dalla e Paola Pallotino. Conta a história de crianças nascidas de mães solteiras italianas com soldados estrangeiros, que morriam ou voltavam para seus países e as abandonavam.

A censura vetou o título Menino Jesus, então ele substituiu para Minha História. Em entrevista ao cubano, o jornalista, cheio de cuidados para tocar no assunto, pediu para que Chico contasse um pouco mais daquela sua triste história. E como ele se saiu? “Sabe Deus (risos)”, diverte-se Homem.
Bom colecionador de causos, Wagner Homem pode dar sequência ao título História de Canções, como autor e coordenador. Para tanto, a editora Leya pretende criar uma coleção e publicar obras sobre vários compositores. Quem está na ponta da agulha é Toquinho. “Ele é uma pessoa doce e com muitas histórias. Tem 11 anos de parceria com Vinicius de Moraes e já viajou todo o Brasil. O irmão dele, João Carlos Pecci, e eu estamos colhendo material. Mas ainda está bem no começo”, diz.

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